h1

Roberto Carlos em Detalhes

25/06/2009

“Por volta de nove e meia da manhã, Zunga e Fifinha pararam numa beirada entre a rua e a linha férrea para ver o desfile de um grupo escolar. Enquanto isso, atrás deles, uma velha locomotiva a vapor, conduzida pelo maquinista Walter Sabino, começou a fazer uma manobra relativamente lenta para pegar o outro trilho e seguir viagem. Uma das professoras que acompanhava os alunos no desfile temeu pela segurança daquelas duas crianças próximas do trem em movimento e gritou para saírem dali. Mas, ao mesmo tempo em que gritou, a professora avançou e puxou pelo braço a menina, que caiu sobre a calçada. Roberto Carlos se assustou com aquele gesto brusco de alguém que ele não conhecia, recuou, tropeçou e caiu na linha férrea segundos antes de a locomotiva passar. A professora ainda gritou desesperadamente para o maquinista parar o trem, mas não houve tempo. A locomotiva passou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vagão, tendo sua perninha direita imprensada sob as pesadas rodas de metal.”

O trecho acima, que conta em detalhes o acidente que arrancou metade de sua perna, seria um dos que teriam incomodado Roberto Carlos, fazendo com que o cantor recorresse à Justiça para proibir da comercialização do livro.

Entretanto, após ler a obra, faz mais sentido acreditar que não foi a publicação de um ou outro capítulo de sua vida que incomodou Roberto Carlos, mas o fato de vê-la escancarada num livro longo e cheio de minúcias.

“Roberto Carlos em Detalhes” é exatamente aquilo que o título promete. E acredito que foi isso mesmo que tanto perturbou Roberto.

Algumas publicações chamaram Roberto Carlos de exagerado, insistindo que o livro não continha nenhum episódio que pudesse causar vergonha ao Rei. Mas como é que uma pessoa pode saber especificar o que causa ou não incomodação a outra? Principalmente se a outra for Roberto Carlos, o artista mais reservado e supersticioso do Brasil.

O livro – um catatau de altura de revista e mais de 500 páginas – começa contando a vida do cantor em ordem cronológica, desde a infância em Cachoeiro de Itapemirim até aproximadamente o ano de 1969, após o sucesso da Jovem Guarda. Dali em diante se separa em capítulos como “Roberto Carlos e a política” ou “Roberto Carlos e a fé”.

Repito: a riqueza de detalhes do livro é impressionante. A infância de Roberto – ou melhor, Zunga – é dissecada através das páginas com informações muito apuradas e depoimentos ao autor. É possível imaginar o pequeno Zunga como tantos outros jovens artistas brasileiros, cantando como se brinca, participando de programas infantis e começando a achar na música a razão de sua existência.

Zunga teve muita coragem ao deixar sua cidade natal e se aventurar no Rio de Janeiro em busca do sucesso como cantor. E como ralou para alcançar seu sonho! A insistência de Roberto Carlos no início de carreira é uma bela lição de vida para qualquer um que busca atingir algum objetivo, principalmente para os músicos preguiçosos e incapazes dos dias de hoje. Talento sem trabalho duro não é nada.

Além do próprio Roberto Carlos, o autor Paulo César de Araújo faz do livro um verdadeiro ensaio biográfico de dezenas de personagens da música e do entretenimento brasileiro do século XX, como Carlos Imperial, Erasmo Carlos, Evandro Ribeiro e Ronaldo Bôscoli.

Até mesmo os compositores de sucessos de Roberto Carlos ganham espaço de respeito no texto, em histórias que contam como era difícil conseguir ter uma canção gravada pelo Rei e em como funciona o processo de seleção e composição de Roberto.

Para pessoas que nasceram nos 80 como eu e que tinham uma visão de Roberto Carlos apenas como cantor de “músicas de mãe” a obra é de leitura imprescindível para que se tenha conhecimento do que foi realmente a gigantesca contribuição de Roberto Carlos para a música brasileira.

Além de chamar atenção para seus discos mais antigos dos anos 60 e 70, que são realmente do caralho.

O tom do livro é quase reverencial, já que o autor Paulo César de Araújo é fã confesso do Rei. Todas as músicas descritas no livro são “uma das melhores composições da dupla Roberto e Erasmo”, os elogios são frequentes e algumas(poucas) vezes descambam para a adoração e a própria introdução do livro é um relato de um episódio da vida do próprio autor, que conta como deixou de assistir a um show de Roberto Carlos na infância e conseguiu realizar o sonho apenas na vida adulta, quando também finalmente conseguiu entrevistar o cantor.

Outro capítulo que teria causado desconforto ao cantor seria o relato de seus romances, casamentos e namoricos nas páginas do livro. Veículos de comunicação agiram com descaso, afirmando que não exisita ali “nada muito além do que já era de conhecimento popular”. Mais uma vez ressalto que em se tratando de Roberto Carlos, a simples existência de um livro contando sua intimidade já é o suficiente para motivar a proibição. Roberto Carlos nunca deve ter lido um trecho sequer da obra. Caso tivesse feito, encontraria lá detalhes de seus casamentos com Nice, com Maria Rita… a relação com Myrian Rios em detalhes, namoricos e casos rápidos. Tudo está lá.

Aliás, se tem uma coisa que o autor faz questão de deixar bem claro, é que Roberto Carlos era um garanhão em seus tempos de solteiro. Um esposo dedicado, apaixonado e crente do amor verdadeiro, mas um solteirão baderneiro e comedor.

A única fase da carreira do cantor que não consta no livro, ou consta apenas de muito leve, é exatamente a época entre 1980 e os anos 2000, quando Roberto Carlos passou a ser, digamos, um artista que atingia uma classe etária um pouco mais avançada e tomou ares de “careta” pela geração que acompanhava o surgimento do rock brasileiro de Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs e outros.

O período é praticamente ignorado pelo autor, que nos saltos temporais basicamente vai de 1978 até o início dos anos 2000.

Ainda há espaço para dessertar sobre a fé de Roberto Carlos, sua relação com a MPB, sua parceiria com Erasmo, sua relação a política e muitos e muitos outros assuntos escancarados nas páginas de “Roberto Carlos em Detalhes”.

Como já existia a possibilidade de proibição, comprei o livro normalmente na época do natal, antecipando qualquer decisão da Justiça. Quando a venda foi de fato proibida, já tinha meu exemplar em mãos, adquirido de forma legal.

O livro ficou anos na minha estante sem que fosse tocado, até que resolvi encarar o calhamaço e iniciei a leitura. Não poderia estar mais satisfeito com a decisão.

Apesar de entender os motivos de Roberto Carlos para proibir o livro e respeitá-los, não posso deixar de dizer que trata-se de um crime. Contra o próprio cantor e sua belíssima carreira. Fosse essa maravilha mais bem divulgada e de acesso mais fácil, o culto a Roberto Carlos poderia ganhar nova força nesse final de década, quando certos tabus já ficaram no passado e vivemos uma eterna onda de revisitar as épocas mais antigas.

Acredito ter lido alguma coisa referente ao fim da proibição, mas se de fato ocorreu não dei bola o suficiente na época para conseguir me lembrar agora.

De qualquer jeito, proibido ou não, “Roberto Carlos em Detalhes” é mais que a biografia proibida do maior astro da música do Brasil. É um relato biográfico impressionante do rico passado musical do Brasil, da época da ditadura e de um tempo onde era um escândalo mandar tudo para o Inferno.

Me despeço deixando uma pequena lembrança: o disco Roberto Carlos(1969) para download.

Esse disco foi o único do Rei que ouvi na íntegra até agora, de cabo a rabo, e achei maravilhoso. Contém os sucessos “As curvas da estrada de Santos” e “Sua Estupidez”, além de “Não vou ficar”(composição de Tim Maia) e “As flores do jardim da nossa casa”, minha música preferida de Roberto Carlos e uma das favoritas de todos os tempos.

Roberto Carlos(1969)

1. As flores do jardim da nosa casa

2. Aceito seu coração

3. Nada vai me convencer

4. Do outro lado da cidade

5. Quero ter você perto de mim

6. Diamante cor-de-rosa

7. Não vou ficar

8. As curvas da estrada de Santos

9. Sua estupidez

10. Oh, meu imenso amor

11. Não adianta

12. Nada tenho a perder

http://rapidshare.com/files/248596501/Roberto_Carlos_-_1969.rar


Anúncios

3 comentários

  1. Escute “O Inimitável”, disco de 68. Tão bom quanto. Alguns acham até melhor.


  2. Oi gente!
    Por causa do Dia Mundial do Rock, a T-Brasil selecionou todas as camisetas do universo do Rock, inclusive das estrelas mais antigas, como Roberto Carlos, Elvis, John Lennon..
    Todas elas estão com 40%! Basta me deixar um scrap no Orkut (Gabi T-Brasil), com a frase: “rock na veia”!
    Tenho certeza que após você usar a camiseta, mil garotas vão querer passear com você 😉


  3. OI ROBERTO CARLOS
    EU SOU SUA FÃ MILHÃO
    EU GOSTO MUITO DE VOCÊ DEMAIS TAMBEM OUVIR SUA MUSICA MINHA VIZINHA NAO GOSTA DE VOCÊ FIQUE TRISTE COM DELA NAO GOSTA DE VOCÊ EU TE AMO



Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: