Archive for 9 de outubro de 2009

h1

Pontos corridos ou mata-mata?

09/10/2009

Desde que o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado por pontos corridos, existe a discussão sobre qual seria a melhor fórmula de jogo para o principal torneio do calendário nacional.

Agora a coisa ficou séria.

Boatos recentes dão conta que uma grande emissora de televisão(Rede Globo) teria iniciado conversas com a CBF e o Clube dos 13 para trazer de volta ao futebol brasileiro a fórmula de disputa do mata-mata para o Brasileirão. O motivo, óbvio, seria recuperar a audiência que o esporte não vem mais rendendo e, presume-se, um torneio com finais conseguiria atrair o espectador para frente da televisão em busca da emoção de ver seu time nos confrontos decisivos do jogo de bola brasileiro.

E, continuam dizendo, os boatos, que as chances disso acontecer são altas. Perigosamente altas.

Tenho saudades dos Campeonatos Brasileiros com mata-mata.

Quando comecei a acompanhar futebol, em 1994, essa era a fórmula de disputa. Foi um grande ano: Sávio surgia de forma fantástica no Flamengo, o Palmeiras tinha aquele timaço maravilhoso da época da Parmalat, Túlio e Amoroso disputavam gol a gol, jogo a jogo a artilharia do campeonato.

As finais foram eletrizantes.

Tinha o Atlético Mineiro com Éder e Reinaldo(lembra dele?) e o Guarani tentando segurar as pontas com Luizão, após a grave lesão sofrida por Amoroso. A final ficou entre Corinthians e Palmeiras.

Não havia nada como a final do Campeonato Brasileiro. Os dois jogos que decidiriam o campeão. Até quando tu não torcia para nenhum dos dois times finalistas – o que sempre foi meu caso, já que o Flamengo nunca chegou a nenhuma final depois de 92 – a tensão do jogo causava nervosismo. Era um dia especial, uma ocasião especial.

Tirando 98, quando o Vasco foi campeão após dois empates por 0 a 0, o mata-mata trouxe ao fã de futebol clássicos imortais que ainda renderão muitas histórias, anedotas e memórias especiais.

Então, em 2003, vieram os pontos corridos. Detestei logo de cara.

Como poderiam tirar do futebol exatamente aquilo que havia de mais emocionante? Como trocar a emoção das finais por um campeonato que, com três ou quatro jogos a serem disputados, já dava pra saber quem seria o campeão?

Mas não adiantava reclamar nem fingir que não ia mais torecer; o futebol brasileiro havia dado o passo final para virar uma tremenda chatice,  apenas para imitar os europeus, uma mania irritante de cartolas e dirigentes futebolísticos do Brasil. Sem contar que os mesmos europeus roubavam nossos craques e rareavam os talentos desfilados nos campos brasileiros.

E os pontos corridos provaram ser a melhor fórmula de disputa para o Campeonato Brasileiro de futebol.

O maior legado desses sistema é a profissionalização dos clubes de futebol e o crescimento do marketing esportivo, diretamente ligados a fórmula que exige que as equipes mantenham um alto padrão de qualidade para almejar o título.

Nada dessa cretinice de “justiça”, entretanto.

Acreditar que o campeonato por pontos corridos é mais “justo” que o mata-mata é o típico pensamento bundão brasileiro. Um país politicamente correto em excesso costuma gerar esse tipo de opinião, sem razão e bestamente apoiada no que um bom senso exacerbado considera correto.

Por que devem ser consideradas injustas as pedaladas de Robinho pra cima de Rogério na final do Campeonato Brasileiro de 2002?

O Campeonato Brasileiro é uma competição. Acima de regulamentos e fórmulas de disputa, o que define o jogo acontece dentro de campo. Não existe injustiça – ou justiça – numa partida de futebol. Apenas vencedores e perdedores.

Defender os pontos corridos afirmando que “premia a regularidade” é também bastante leviano. Se, com regularidade, um time só perder jogo após jogo, seu “prêmio” vai ser o rebaixamento para a Segunda Divisão. Pergunte ao Fluminense.

Os pontos corridos são a forma absoluta de disputa exatamente por causar a evolução obrigatória do futebol.

No mata-mata, um time com um elenco dividido, que não recebe salários e joga de putaria, pode, com a motivação certa, fechar um acordo de dar o máximo por seis partidas e conquistar um título. O troféu chega, a administração não muda, as dívidas aumentam e o futebol apodrece.

Nos pontos corridos, a situação exige que salários estejam em dia, que o grupo esteja unido ou que pelo menos funcione como uma equipe de futebol. Não há espaço para fatores extra campo que possam comprometer o futuro do time. Exige seriedade o tempo todo, 38 rodadas por ano.

Os pontos corridos premiam a estrutura.

Dessa forma, os clubes que não sabiam como ganhar dinheiro com a própria marca acordaram para a realidade do mercado. Hoje exploram formas de gerar receita que não existiam na década passada.

E ainda existem muitas oportunidades lá fora.

Mudar o formato do Campeonato Brasileiro pode brecar essa evolução.

Campeonatos com repescagem e 97 times jogando um regulamento esdrúxulo é um preço alto demais a se pagar por quatro ou seis partidas um pouquinho mais emocionantes da fase final. Como nos estaduais. Como na Copa do Brasil. Como na Libertadores.

Além claro, da volta das administrações amadoras que focam o planejmento nem mesmo no “hoje”, mas no “agora”.

Ah, e o que a Rede Globo talvez não saiba, é que não é possível salvar a audiência do futebol brasileiro. Existem outras mídias disputando a audiência, outro cenário de comportamento e muito mais gente vendo os jogos de perto, no estádio.

Talvez fosse o fato da televisão rever certos conceitos antes de sair metendo o dedão sujo no que está funcionando. Os clubes de futebol estão se adaptando aos novos tempos e,  com isso, melhorando de formas que antes não poderíamos nem acreditar.

A Rede Globo deveria deixar de ser sem-vergonha e fazer o mesmo.