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Prof. House Girafáles, M.D.

21/10/2009

É importante para as pessoas ter um modelo de vida, alguém que se possa tomar como exemplo e que nos apresenta maneiras de enfrentar o presente e alcançar o sucesso no futuro.

Durante a infância, é comum nos espelharmos em personagens de desenhos animados ou dos seriados japoneses que passam na televisão.

Nas brincadeiras sempre rola o “eu sou fulano” e aí tu sai imitando da melhor forma possível e, às vezes, até emula a figura impersonada nas ações do dia a dia.

Aí tu cresce e súbito não é mais o Jaspion.

Tu estudou, amadureceu e tuas prioridades e desejos acompanharam esse crescimento. Assim, quando tu procura um modelo de vida – ou melhor, quando ele te encontra – o que vale pra ti são ações, frases memoráveis, sua filosofia ou simplesmente a maneira de enxergar o mundo.

Um profissional costuma admirar outro profissional da mesma área, geralmente mais velho e mais bem sucedido. É a ordem natural. Essa forma de “seguir” uma pessoa e transformá-la em modelo ocorre porque, afinal de contas, nos identificamos ou precisamos de certas características que julgamos necessárias e que não conseguimos desenvolver por nós mesmos. Então, procuramos aprender de outros seres humanos.

É saudável e importante, além de realmente ajudar a tirar de dentro de cada um de nós, nosso melhor.

O que não dá pra aceitar é que existam por aí estudantes de medicina que se espelham em Gregory House, M.D.

House é brilhante. O melhor diagnosticador do mundo. Ele consegue descobrir doenças e sintomas muito mais rápido que um oncologista, um neurologista ou uma especialista em doenças auto imunes jamais conseguiriam. E faz isso enquanto dispara tiradas inteligentes e hilárias, a todo instante. Dr. House não se importa com os pacientes, é grosseirão e viciado em drogas, o que, de certa forma, o deixa ainda mais brilhante.

Além disso, Dr. Gregory House é um personagem de uma série de televisão. E é exatamente esse pequeno fato que faz dos estudantes de medicina que usam House como modelo, grandes exemplos da imbecilidade que habita o mundo atual.

Um estudante de medicina querendo ser o House é a mesma coisa que um estudante de pedagogia se inspirar no Professor Girafáles para seguir na profissão.

“Ele é tão culto e inteligente, se veste com elegância e se esforça para ensinar crianças de origem humilde, como o Chaves”.

Claro, olhar pelo lado das virtudes que esses personagens apresentam pode parecer atraente, mas é apenas uma análise rasa da profissão que eles representam, já que seu caráter nada mais é que uma visão idealizada do ofício.

Quer dizer, um professor de carne e osso já teria expulsado o Nhonho da sala de aula, ao invés de ficar 45 minutos como refém de piadas, servindo como escada.

Buscar as virtudes do Prof. Girafáles e do Dr.House e procurar emulá-las na execução da labuta tem, claro, algum valor. O cidadão pode ficar inspirado em se tornar um educador polido e bem intencionado, que sabe tratar com o cuidado necessário uma mãe solteira e seu filho mimado. Assim como um jovem doutor pode se motivar a saber tudo sobre o mais obscuro tudo, como o Dr. House.

Mas nunca podemos subestimar a idiotice das pessoas.

O que cativa os jovens estudantes de medicina não é o brilhantismo de House, mas seu destrato por pessoas e pacientes em geral. Seu métodos antiéticos e por vezes violentos de resolver “casos” e o total desrespeito por autoridade ou consequências.

E essa é a grande diferença entre um professor Girafáles e um médico House: o primeiro, no máximo, permanece alienado à realidade lecionando em escolas públicas. O segundo, mata pessoas.

Os diagnósticos de House são impossíveis. E só acontecem exatamente porque os roteiristas já sabem a condição dos pacientes.

Sempre gostei muito dos livros de Sherlock Holmes. Li vários títulos durante a pré adolescência. O que mais me recordo chama-se “Histórias de Sherlock Holmes” e apresentava uma série de casos resolvidos pelo detetive inglês junto com seu fiel amigo, o Dr. Watson.

Sempre me impressionava com as deduções de Holmes, como ele conseguia saber tanto sobre as pessoas e como ele sempre conseguia estar certo, sempre esperava exatamente o que ia acontecer. E aí, no alto de meus doze anos de idade, me dei conta: antes mesmo da história começar, ele já sabia a solução. Ou melhor, o autor sabia.

Quando ia escrever a história, Sir Arthur Conan Doyle já sabia o final. Sabia quem tinha cometido o crime, como e o porquê de ter feito isso. Era a primeira coisa que escrevia. Tendo essa informação, o caminho para solucionar um caso torna-se extremamente simples. Basta inventar formas – ortodoxas ou não, impossíveis, rápidas, inteligentes – que justifiquem a descoberta de pistas e as deduções de Holmes. É assim que funciona House.

É fácil diagnosticar um paciente que tem uma hora de vida, dentro de um elevador, com um carrapato impossivelmente dentro de um orgão genital quando é exatamente isso que diz no script.

Na vida real, não tem roteiro. E nem Cuddy pra bancar o tão brilhante doutor que, numa jogada muito ousada, deixa um paciente paralítico ou mata a mãe de quatro filhos.

Além do que os hospitais brasileiros e seu pacientes não têm a menor condição de bancar dezenas de MRI, biópsias, punções lombar, exames disso, daquilo e outros procedimentos que custam milhares e milhares de reais. Que os estudantes pensem nisso ao atender pelo SUS.

Curiosamente, descobrir o segredo das histórias de Sherlock Holmes me tirou um pouco do gosto de ler suas aventuras, enquanto House permanece com a diversão intacta.

Que reflitam os estudantes de medicina do Brasil. Colocamos nosso dinheiro, nosso esforço e nossos votos em idiotas subcapacitados, não acho que seja necessário colocar também nossas vidas.

Não percam tempo querendo ser um personagem de televisão. Não vão conseguir. Querem ser o House? Estudem. Não copiem QUEM ele é, apenas o que faz de melhor. Talvez sirva de alguma coisa.

A grande maioria já é mesmo idiota e arrogante, apenas não consegue enxergar isso. Essa é a parte fácil. Quero ver ser mais brilhante que um oncologista, um neurologista e uma especialista em doenças auto imunes. E isso enquanto dispara tiradas inteligentes e hilariantes.

Uma dica a todos os House wannabes: assistam Chaves.

Talvez a figura almofadinha e caricata do Profesor Girafáles sirva para ensinar a vocês um pouco daquilo que mais precisam: humildade. E que programas de televisão são apenas programas de televisão; entretenimento, não exemplo de comportamento.

Só não vão sair da frente da TV com a idéia fixa de querer morar num barril*.

—–

* “Ninguém pode morar num barril” — Chaves

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