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Kindle: eu só quis dizer…

11/01/2010

Na década passada e até mesmo no início desta década, era muito comum assistir no Fantástico da Rede Globo reportagens sobre a “casa do futuro”.

A tal morada apresentava uma série de inovações arquitetônicas e tecnológicas. Uma vez a casa do futuro era feita de plástico, na outra possuía uma dispensa que avisava por telefone que estavam faltando ovos na casa. Sempre uma série de parafernálias inúteis que o tempo mostrou que não vingaram.

A última reportagem de casa do futuro mostrada pelo Fantástico que eu me lembro de ter visto foi ao ar há mais ou menos uns 10 ou 11 anos. Me lembro da matéria porque uma das atrações da casa me chamou a atenção: a geladeira com internet.

A geladeira com internet, pelo que me lembro, era um trombolho com uma tela na porta. Através da tela a cozinheira podia acessar a internet e fazer as compras sem sair de casa ou mesmo acessar receitas para a família. Ou ver ponografia de pé na cozinha.

Apenas um pensamento me veio à mente ao ver a geladeira com internet: “ninguém vai querer esse troço”

Mais de uma década se passou e as geladeias, obviamente, não possuem acesso à internet. Reportagens sobre a casa do futuro rarearam, mas o mundo continua cheio de parafernálias inúteis que não vão vingar. E uma dela me chamou muito a atenção, bem ao estilo “geladeira do futuro”: o Kindle.

O Kindle, pra quem não sabe, é um novo gadget lançado no mercado, o que automaticamente significa que a geekarada toda vai comprar, não importa o que ele faça, afinal de contas, é um gadget.

E o que ele faz? Bem, o Kindle é um ebook reader, ou apenas, “tipo um iPod” com livros ao invés de músicas, filmes e fotos. Isso mesmo, se o mundo tecnológico fosse uma high school americana e o iPod o aluno mais popular, o Kindle seria aquele nerd chato e tedioso.

Através do Kindle, o usuário tem a possibilidade de ler livros, jornais e até acessar blogs.

Antes do Kindle surgir, só era possível ler livros e jornais e blogs se você tivesse disponível um par de olhos(um só também serve, embora seja necessário um pouco de prática) funcionando com alguma perfeição.

Por que as pessoas vão querer um Amazon iReader Google Bookshit Software? Não seria muuuuuuuuuito mais fácil, dixa eu ver, hã… comprar um maldito livro?

“O Kindle é tão bom que eu posso levá-lo para todos os lugares”

E se a portabilidade do aparelho não é o suficiente para convencê-lo de sua utilidade, o preço de mercado brasileiro certamente falhará em fazê-lo: o Kindle custará ao brasileiro R$ 1000. Um conto. Sabe quantos livros dá pra comprar com esse dinheiro? Quantos jornais? Quantas Hustler?

Além disso, é necessário pagar pelo download de livros. Não apenas pelo livro em si. Mas existe uma taxa de download de U$ 1,99 por item. Um preço aparentemente modesto, mas muito salgado pra gente apenas colecionar um monte de “livros inteiros” que não vai nem ter tempo de ler porque estamos ocupados brincando com coisas legais que nosso iPod sabe fazer.

Segundo o Ministério da Cultura, o brasileiro lê, em média, 1,8 livros por ano.

Se esse texto fosse uma luta de boxe e os participantes fossem Matemática x Kindle, Matemática já teria nocauteado o Kindle umas duas vezes e estaria a ponto de ter sua orelha decepada por uma mordida(que metáfora genial EU SEI).

Entre os pontos positivos do Kindle está a duração da bateria. Graças ao uso do E-Ink ela dura por dias. Realmente uma grande vantagem para aquelas horas em que acaba a luz e não tem nada pra fazer, mas um dado bem boboca se comparado ao tempo de duração da bateria de um livro de papel.

Fora tudo isso, existe ainda o maior “fator Geladeira do Futuro”: as pessoas gostam de ir às livrarias comprar livros.

Se existe serviço de entrega de supermercado pela internet, por que as pessoas insistem em fazer as compras pessoalmente? Por que não pedem através do computador da geladeira?

R: porque quem gosta de cozinhar, quem precisa cuidar da casa, assim como quem gosta de ler e tem o hábito de comprar livros, precisa estar lá. E “precisa” não se refere apenas a necessidade, mas a satisfação pessoal que todos nós sentimos ao realizar uma atividade que nos cause prazer.

Quem realmente gosta de ler – mais de 1,8 livros por ano – não vai trocar as livrarias pelo prazer de pagar U$ 1,99 para baixar um livro. E é exatamente esse ponto o que torna o Kindle um artefato dos mais descartáveis.

Fora, é claro, o princípio do aparelho, que basicamente complica algo que era fácil, tenta melhorar o que já era perfeito, falha miseravelmente e cobra uma fortuna por isso.

Se você pensa em comprar um Kindle, uma sugestão: pegue 1000 reais e vá até a maior e mais monstruosa cadeia de livros de sua cidade e gaste tudo lá. Compre esse aqui, ó que legal. Tem no Kindle?

Ou apenas compre um iPod e gaste o resto em mé.

Durante o Festival de Publicidade de Gramado de 2007, assisti a uma palestra que falava sobre a nova maravilha tecnológica da internet e da publicidade: o Second Life.

Na ocasião, em meio ao entusiasmo, achava a idéia revoltantemente idiota e fadada ao fracasso. Infelizmente a timidez de uma opinião inevitavelmente ridicularizada me impediu de levantar e dizer ao palestrante “com licença, mas daqui a três anos ninguém vai sequer lembrar que essa merda existe”.

Quanto ao Kindle, não vou perder a chance:

Daqui a três anos, ninguém vai sequer lembrar que essa merda existe.


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