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Linguística do futebol: eu só quis dizer…

09/02/2010

Futebol é um meio bastante complexo.

Trata-se de um esporte cheio de jargões, teorias e conceitos mirabolantes.

Entretanto, toda essa rica composição de valores muitas vezes serve apenas para entregar um entendimento diferente à mais simples das verdades do esporte: quem é bom, é bom com a bola nos pés.

Muitas vezes passamos uma partida inteira sem ver determinado jogador tocar na bola. Comentaristas e treinadores explicam que  fulano é muito importante para o esquema ou que desempenha função tática.

Isso quer dizer apenas, pura e simplesmente que o citado jogador é um perna-de-pau.

“Aplicado taticamente”, “executa função tática”, “faz a bola girar” são apenas formas pomposas de dizer que o jogador não sabe jogar bola ou que não é bom em nenhuma outra coisa curta e grossa que realmente seja sinônimo de bom futebol, como “passar”, “marcar” e “chutar”.

O esporte está cheio de exemplos como esse.

Quando um atacante “gosta de jogar de costas para a defesa” significa que não adianta depositar nele a esperança de ver gols marcados, porque ele simplesmente não marca gols. Ora diabos, se um atacante está de costas para a defesa está também de costas para o gol e, a não ser que seja um dínamo mágico e consiga disparar potentes chutes de calcanhar, o tal atacante pouco chutará a gol, inclusive mostrando muita dificuldade ao cumprir esse fundamento.

Um grande favorito dos comentaristas brasileiros é o que pode ser chamado de “fator bicho-papão”: acontece quando o jogador não aparece no jogo, não chuta, não cria, não passa, não marca e nem é mencionado pelo narrador, mas o comentarista faz questão de exaltar sua performance pois ele está “assustando” os adversários com a sua presença.

Curiosamente apenas jogadores com certo grau de consagração no futebol assustam zagueiros. Outros mais desconhecidos que exercem essa função são geralmente substituídos, vaiados ou detonados por comentaristas esportivos.

“Assustar o adversário” é o que faz todo aquele atleta que joga apenas com o nome.

Uma das mais conhecidas variações é a “experiência”. Ela é atribuída a todo o jogador que chega ou passa dos 30 anos. Claro que o jogador veterano tem um conhecimento aprofundado do que acontece dentro de campo, mas quando a tal experiência é tudo de melhor que ele pode oferecer então chamá-lo de “experiente” é apenas citar a última coisa perto de uma qualidade que ele ainda pode oferecer ao time.

Exemplo: “o Corinthians entre em campo hoje com o talento do artilheiro Ronaldo, a habilidade do argentino Defederico e a experiência do meia Tcheco”.

Outra forma bastante comum de exaltar o perna-de-pau e agregar valor a seu nome é usar um título importante somo seu primeiro nome.

Às vezes o jogador anda tão sumido no jogo e parece tão improvável que um dia já tenha jogado bem que cabe ao narrador lembrar à torcida que quem tocou a bola foi “o pentacampeão Kleberson”, “o tetracampeão Ronaldão” ou, em menor escala, “o campeão da Libertadores pelo Vasco da Gama Nasa”.

Esses são apenas alguns exemplos de como a língua portuguesa empregada pelos profissionais do esporte na televisão podem mudar conceitos sobre muitos jogadores. O pior é que funciona e em pouco tempo aquele pereba experiente, que sabe cadenciar o jogo está embarcando rumo à Europa.

Desconfie dos que falam demais. Acredite nos seus olhos e conhecimento futebolístico. Tem muita gente querendo nos empurrar perna-de-pau…

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