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Tão teimosa e tão mandona

02/03/2010

Cuidado!

Só de olhar para a imagem acima você pode estar sendo vítima dos maus costumes. Pode sofrer uma irreversível reeducação subversiva que o tornará um cidadão violento, obeso e sociopata.

Quem afirma isso, obviamente, não sou eu e sim o Sr. Dioclécio Luz, em texto escrito para o Observatório da Imprensa.

Tem cara de ser um daqueles migués internéticos mas, na dúvida, vale dar uma comentada.

O texto basicamente afirma, com vários “argumentos”, que através da Mônica as crianças aprendem que os problemas devem ser resolvidos na base da porrada. E que a Magali vem criando gerações de obesos graças a seu insasciável apetite, que serve como exemplo para as indefesas criancinhas.

Seria um ponto de vista não imbecil, não fosse por um pequeno detalhe que o autor do texto – e muitos educadores zelosos – não leva em consideração: crianças não são idiotas sem cérebro.

Segundo o autor, “a Mônica, porém, não é um caso, uma personagem de gibi. Ela é um símbolo. Milhares de crianças lêem a Mônica. E o que estão aprendendo?

1) as coisas se resolvem na porrada;

2) a regra é olho por olho, dente por dente;

3) o bulling deve ser praticado;

3) a inteligência ou a sensibilidade não devem ser usados para resolver conflitos.”

Ao iniciar minha vida literária aos 4 anos de idade enxergava em histórias em quadrinhos a maneira mais completa de saciar o apetite pela leitura. E, sendo assim, detonava os gibis da Mônica.

Das duas uma: ou eu era jovem demais para entender que aquilo era parte fundamental da formação do meu caráter ou apenas burro demais pra aprender a sair dando porrada em quem me chamasse de baixinho(não era dentuço, muito menos gorducho).

Pois ler o gibi era apenas isso: divertido. E hoje sou um dos adultos mais bundões que conheço, do tipo que evita qualquer confronto e que acredita no miraculoso poder social de uma cervejnha gelada. E sou garboso também.

Por mais absurdo que possa parecer, uma criança não lê uma história em quadrinhos para aprender, mas para se divertir. Para aprender as crianças vão para a escola e, ainda assim, chegam a vida adulta sem saber resolver uma equação matemática. Por que aprenderiam a dar porrada com a Mônica?

Quando o pai de uma criança faz uma brincadeira imbecil tipo “peguei teu nariz” o muleque não fica lá pensando “meu deus! Meu pai tem o poder de manipular a estrutura física e molecular de outros seres humanos!” tampouco aprende pro resto da vida que têm livre direito de posse e propriedade sobre partes do corpo de outros seres humanos.

É só uma brincadeira! Criança sabe disso. É engraçado e divertido ver o Cascão fugindo de chuva, de banho. Mesmo o piazinho que não gosta de se lavar diariamente sob um chuveiro entende que é importante.  Se o Cascão fosse de verdade ia ter cheiro de merda e um monte de doenças. Nem as crianças que gostam de brincar na lama gostariam de ser um cagalhão ambulante.

Há uma confusão no discurso da Magali (o dela e o de quem a faz falar): a obsessão por comida é considerada um traço da sua personalidade, mas não causa efeitos negativos sobre a saúde. Esse é o problema. Se uma criança que tenha obsessão por comer se identificar com Magali, não vai se esforçar para romper com essa obsessão.”

Quando eu era criança odiava comer(fui descobrir o prazer da gula após os 18 anos) e nem a Magali se empanturrando me abria o apetite.

Muitas crianças não gostam de comer e acredito que se ler a Magali ajudasse nesse sentido, os pais se sentiriam gratos.

Deve ser ruim apenas para os milhões de crianças famintas que ficam cheias de água na boca por causa da Magali e toda a comilança. Ainda bem que pobre não sabe ler.

Sobre o porquê da Magali não se tornar obesa, é que a Turma da Mônica, por mais fiel que seja à realidade, não é um documentário ou nada do tipo.

A Mônica tem superforça, o Cebolinha tem cinco fios de cabelo e a Magali come. É tipo um superpoder.

Eu particularmente adoraria os gibis da Magali se ela fosse obesa mórbida, precisasse de guindastes pra se levantar e se locomovesse naqueles carrinhos de gordão que tem nos cassinos norte-americanos, mas não vai acontecer. É um personagem e esse é o diferencial dele, porra! Personagens não passam por mudanças físicas como as pessoas de verdade. Daqui a pouco vai reclamar do que, que o Cebolinha não tem pêlo no suvaco??

Todos nós que crescemos lendos os gibis do Maurício de Sousa somos hoje publicitários, comediantes, advogados, traficantes… e por aí vai. Não, o gibi em si não influenciou diretamente em nossa formação, mas nos ensinou a ler e nos forneceu genuínos momentos de diversão.

Chegamos ao ponto que estamos através de escolhas durante a vida e da educação provida por nossos pais. Se a Turma da Mônica influenciou o comportamento de alguma geração, foi através do texto publicado para o Observatório da Imprensa em 2010.

Ao ler aquele troço, nenhuma criança vai querer se tornar um adulto babaca.

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