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O Brasil é Dourado

31/03/2010

Não tem chororô, esse jogo acabou”.

A frase acima, de autoria do sábio Hugo da CNT/Gazeta dos anos 90, resume muito bem a postura correta que aqueles que se sentiram derrotados com o resultado do BBB 10 devem assumir.

O Brasil é Dourado. Ou, esmiuçando o trocadilho, o Brasil votou em peso e escolheu Marcelo Dourado como o vencedor do joguinho de realidade da Globo, fazendo com que levasse para sua casa na favela o prêmio de 1,5 milhões de reais.

A vitória não foi apenas esperada. Quer dizer, Dourado, com o passar das semanas, já havia se tornado o franco favorito. Foi a vitória mais merecida de toda a história dos reality shows no Brasil em todos os tempos.

A décima edição do Big Brother Brasil foi um belo tiro n’água. Eu nunca havia acompanhado nenhuma edição – pra falar a verdade, não cheguei a realmente “acompanhar” a atual – mas devido ao costume da minha namorada de assistir ao programa, resolvi dar aquela espiadinha básica.

Foi muito decepcionante. Os participantes dessa décima edição, a que mais pagou até hoje, eram um bando de bundões.

A produção(Boninho) achou que seria interessante se “modernizar”, ou traduzindo, “buscar na internet” alguns participantes. O motivo disso deve ter sido causar mais apelo entre os “jovens” e a palavra jovens está entre aspas porque o pessoal do BBB agiu como um bando de velhos ao executar a tarefa.

Porra, até no fotolog foram buscar gente pra participar! Mais impressionante que isso, apenas a constatação de que fotolog ainda existe.

O rapaz do fotolog era um viadinho, bichinha, boiolão homossexual que tirava fotos com caras e bocas, sabe, aquela viadagem toda. “Nossa, vai ser um escândalo!”, pensaram os produtores. Não foi. A bicha não fez nada demais lá dentro. Não foi engraçado, não foi ousado… não foi nem mesmo bicha! Quase pegou uma das mais gatas que tinha lá dentro! Aí não dá, eliminado. E muita decepção para Boninho.

O resto dos participantes não era melhor: uma gatinha(aquela que o bicha quase pegou), uma lésbica, um bicha drag, um bombadão, uma internética que não queria estar lá, uma mulher com uma bunda gigantesca… e mais alguns eliminados nas primeiras semanas. Fora essas suas características peculiares, que permitem que sejam definidos em poucas palavras, um ponto em comum: eram todos chatos, sem sal. Bundões.

Está muito claro que a produção precisa se esforçar mais para escolher os participantes.

Faz algum tempo eles inventaram de botar uns pobres lá dentro. Aí, por falta de instrução, cultura e de uma personalidade mais, digamos, voltada para o entretenimento, os pobres pouco faziam dentro da Casa. Muito chato. E pior: ganhavam o programa, pois o povo ficava com pena, esquecia os meses de competição, de brigas, intrigas e manipulações para entregar logo o dinheiro a quem julgavam precisar mais.

Boninho mudou o programa. Acabou a pobretada. Vamos botar uns gays, uns internéticos e vai ser polêmio, vai pegar fogo. Mas não aconteceu. O que realmente mudou a história do BBB veio da edição de seis anos atrás.

Dourado não foi eliminado na primeira semana porque ganhou imunidade daquela ex-Miss com cara de porquinho.

Os dois seriam eliminados primeiro, pois o brasileiro, naquela síndrome de tadinho, achava que era injusto continuarem pois “já tinham tido sua chance”, como se não fosse um programa de TV, fosse esmola.

Mas aí ele ficou. E seria errado dizer que ele ganhou, venceu o prêmio. Ele conquistou 1,5 milhões de reais.

No meio de gays, lésbicas, amor fraterno e todo mundo bonzinho, Dourado mostrou uma coisa que ninguém na casa tinha a oferecer: personalidade.

Ele já havia perdido um BBB, fracassou como lutador e vivia todo fudido na favela. Mas, em momento algum, se fez de coitado. Muito pelo contrário.

De cara já confrontou todo o conceito do Big Brother GLBTEGSJHEY, deixando muito claro que não gostava de bichisse.

Aquilo, para quem estava aqui fora, foi um ato de se admirar. Muita gente não gosta de bichisse. Não digo que as pessoas odeiam gays, longe disso. Com o que a muita gente não concorda é, por exemplo, acontecer uma festa, ter homem se beijando, ou dançando e tu SER OBRIGADO a gostar daquilo.

Eu não tenho absolutamente nada contra homossexuais, já tive amigo gay que era muito gente boa e que eu sempre me entendi bem. Mas tem coisas, que por tu ter uma outra orientação sexual, tu não gosta de ver, é desagradável e sim, muito nojento.

O problema é que o BBB impunha a seguinte condição: quem não gosta de ver homem se beijando ou vestido de shortinho automaticamente é homófobo.

Eu particularmente odeio esse tipo de posicionamento politicamente correto muito praticado pelos imbecis que habitam o Twitter.

É aquela coisa: se o cara diz que o Maradona foi melhor que o Pelé, é racista. Ah nossa, o Pelé era preto, o Maradona era branco, racista imundo. Não, o sujeito não é racista. É apenas argentino(o que é muito pior, convenhamos) e tem uma opinião.

Nem tudo na vida é sobre cores, raças e opções sexuais.

E o Dourado foi lá pra dentro e defendeu isso. Não, não gostava de bicha. Foi autêntico. Arrotava, tava pouco se fundendo. Botou banca. Era o único lá dentro que fazia qualquer coisa que não fosse o óbvio.

E aí teve o episódio do Poder Supremo. Por voto, ele ganhou o direito de mudar o jogo a seu bel prazer. Os brothers se perguntavam “como o público pode ter votado num cara que faz o que ele faz?”. Não conseguiam entender que o público votou nele EXATAMENTE porque ele fazia o que fazia.

Como me disse o @_bauducco_ , ele se tornou um personagem. Se tornou como o Chuck Norris, com Dourado Facts e tudo. Ninguém liga pra uma pessoa normal. Dourado foi além, um caricatura de super-herói, um Capitão Nascimento de carne e osso que transformava o óbvio em entretenimento.

Muita gente ficou chateada com sua vitória – em sua maioria gays e simpatizantes de gay. Aquele Jean que era gay e também ganhou um Big Brother classificou todos os que torciam para o Dourado como “homofóbico”. Exatamente o tipo de postura que fez com que ele vencesse.

Ninguém odeia gays só porque votou no Dourado. Big Brother não é vida real, não é o reflexo da sociedade. É um programa de televisão. É entretenimento. E, de longe, o mais divertido dos participantes era o Dourado. Por isso conquistou 60% dos votos.

Foi-se a época em que nossos heróis ficavam ricos por serem pobres ou por serem homossexuais, tendo sua participação em minorias premiada como se fosse uma qualidade absoluta, acima do bem e do mal. O brasileiro está conseguindo ver mais além.

O brasileiro está aprendendo a votar. Pelo menos, em reality shows. Pois na reality reality a pobreza e o “fator tadinho” ainda fazem muita diferença nas urnas.

Quem sabe não aparece um Marcelo Dourado para salvar também nossa política?

Enquanto isso não acontece, saboreamos a vitória que trouxe 1,5 milhões para a falta de conformismo e bom-mocismo encenado.

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