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O fim da Era Dunga

06/07/2010

Acabou.

Passados 20 anos, chega ao fim, definitivamente, a Era Dunga na Seleção Brasileira.

Primeiro capítulo

O período teve início em 1990 e foi criado em referência ao estilo de jogo da Seleção Brasileira, que deixava para trás a habilidade sem títulos mundiais de Sócrates e Zico para dar vez ao futebol aguerrido e (esperava-se) de resultados, mais focado em vencer partidas e sem a necessidade de se apresentar com atuações vistosas dentro de campo.

O volante Dunga, um jogador de combate, de defesa, tornou-se o símbolo maior daquela fase de nossa Seleção, acabando por batizar  o período, que por quatro anos, foi visto como um triste e infeliz capítulo de nossa história esportiva.

Segundo capítulo

Entretanto, em 1994 Dunga retornaria ao posto de protagonista do futebol mundial ao disputar a Copa do Mundo como capitão da Seleção Brasileira e erguer a taça mais emocionante já conquistada pelo Brasil.

A imagem do jogador levantando o troféu exorcizou os fantasmas da Era Dunga, que, veladamente, se tornou referência do estilo disciplinado e vibrante do capitão dentro de campo.

Quatro anos depois, a Era Dunga continuou. Esperava-se que o capitão repetisse seu desempenho dentro de campo e que a Seleção trouxesse o penta, com muita gente lembrando como Era Dunga passou de um termo pejorativo para a definição de um escrete vencedor.

Mas, durante a disputa do torneio, o que se viu foi um capitão mais destemperado que o de costume, gritando demais e cobrando os companheiros demasiadamente. Chegou ao ponto de desferir uma cabeçada em Bebeto durante uma partida, o que o levou a assumir os excessos dentro de campo e prometer maneirar.

O penta não veio após uma partida horrorosa cheia de mistérios contra a França e ali se encerrava a participação de Dunga como jogador da Seleção Brasileira. Quando a Era Dunga era mencionada, sempre se falava sobre o fiasco da Copa de 1990 e do futebol feio do time de Lazaroni, lembrança quase sempre complementada pela conquista do tetra em 1994, livrando Dunga do peso de ser injustiçadamente o jogador a emprestar o nome a uma fase negra de nosso futebol.

E assim seguiram muitos e muitos anos, até que o Brasil perdeu uma Copa do Mundo da forma mais esdrúxula e bagunçada possível e Ricardo Teixeira resolveu fazer um convite…

Quando Dunga foi anunciado como técnico da Seleção Brasileira, ninguém gostou. Os motivos eram muitos, mas podem ser resumidos em dois pontos: primeiro, não possuía experiência na função e, segundo, por ser novato e sem um nome profissional a zelar estaria sujeito aos caprichos de Ricardo Teixeira, como por exemplo, escalar jogadores de determinados empresários em troca de comissões e influência com os mesmo.

Por outro lado, Ricardo Teixeira lembrava das qualidades de Dunga como capitão, afirmando que seria a pessoa ideal para cortar os excessos que implodiram o hexa brasileiro em 2006. Começava o terceiro capítulo da Era Dunga.

Terceiro capítulo

Dunga foi eliminado com o Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo e demitido da função de treinador, junto com toda a comissão técnica, por Ricardo Teixeira.

Quatro anos após sua contratação, esse foi o destino e encerramento da Era Dunga.

Curiosamente, tudo o que havia sido previsto quando o ex-capitão assumiu a função se confirmou: Dunga fez convocações cavadas pelo presidente da CBF e instalou um regime quase militar na Seleção Brasileira.

A diferença é que em 2006 temia-se pelo primeiro fato e torcia-se pelo segundo. Hoje, o tal regime chegou a ser apontado como uma das causas da derrota, enquanto as cavadas de empresário foram sumáriamente ignoradas, como de costume, pela imprensa de modo geral.

A imprensa, aliás, teve uma participação toda especial nessa Era Dunga. Em especial, a Rede Globo.

Quando Dunga optou por realizar treinos fechados e por blindar seu grupo, causou um grande problema para os jornalistas presentes à África do Sul. Afinal de contas, impossibilitados de acompanhar de perto a Seleção, como justificariam aos patrões no Brasil o investimento usado para levá-los para passear em outro continente?

E jornalista contrariado é igual advogado contrariado(com exceção do poder e do dinheiro) e logo os representantes da classe mostraram aquele lado nojento da profissão, alimentado pelos anos passados nas universidades ou como chantagistas de plantão em jornalecos de quinta: declararam guerra à Dunga.

E isso significou uma coisa apenas, desde o início: se o Brasil perdesse, a culpa seria de Dunga. Ou melhor, se o Brasil perdesse, fariam de tudo para jogar a culpa para cima de Dunga.

Dessa forma, nós, pobres espectadores, tivemos que engolir uma matéria patética, tendenciosa, mentirosa e de causar vergonha ao mais alienado dos cidadãos no Esporte Espetacular do último domingo.

O repórter Marcos Uchôa realizou um trabalho enfadonho tentando provar, sob uma ótica torpe e distorcida, como Dunga – ele mesmo, a pessoa, o culpado – arruinou o sonho do hexa do povo brasileiro.

Pra completar o ataque da Rede Globo, no programa de ontem da SporTV Bem Amigos, o dono da CBF, Ricardo Teixeira foi o convidado que respondeu a perguntas, meticulosamente preparadas pelos presentes, com o único ituito de livrar sua cara e jogar a culpa toda para cima de Dunga.

O mesmo Ricardo Teixeira que contratou Dunga, ressalte-se.

O mesmo que pediu mão firme na Seleção, agora agindo como cachorrinho adestrado – de contrato novo já assinado, vamos lembrar – para com a emissora que ficou bravinha porque foi esnobada pelo capitão do tetra.

Não podemos esquecer que o próprio Teixeira, indigno do cargo que ocupa, foi o primeiro a reclamar da putaria da Copa da Alemanha – sendo que foi ele próprio quem permitiu tal putaria, em primeiro lugar.

Aos espectadores do Bem Amigos, Teixeira chegou a insinuar que viu que tudo estava dando errado, que sabia que o trabalho iria todo por água baiaxo, mas que não teria como demitir Dunga.

A verdade é que Teixeira passou os últimos quatro anos completamente satisfeito com o trabalho do treinador.

Fosse Felipão o técnico do Brasil, diversos Afonsos, Jônatas, Morais não teriam sido convocados para se valorizar, assim como a “convocação presidencial” de Ronaldinho Gaúcho para as Olimpíadas não teria acontecido.

A culpa não foi de Dunga.

O Brasil tinha uma excelente equipe.

Tinha maior dificuldade contra adversários inferiores que se fechavam em ferrolho todo na defesa, mas nunca deixou de encarar os grandes do futebol mundial, no mínimo, de igual para igual. E derrotou a todos eles quando os enfrentou.

No Brasil, temos a mania de achar que não existe mérito na vitória do adversário, que existe sempre um grande culpado por trás de nossos fracassos. Mas o futebol não é assim.

Sim, os gols da Holanda surgiram de falhas individuais, a equipe como um todo perdeu a cabeça e o controle do jogo. Mas os holandeses também souberam jogar, souberam anular o belíssimo primeiro tempo brasileiro e criar chances de gol.

Não existe uma explicação oculta para o fracasso. Ele apenas aconteceu e, infelizmente, num mata-mata de Copa do Mundo.

Não é a ausência ou presença de um jogador que derrubaria uma equipe sólida como o Brasil. Talvez um pouco mais de habilidade no meio fosse mesmo bem-vinda, mas não mudaria absolutamente nada. O Brasil, jogando daquela maneira, contra a Holanda, jogando daquela maneira, nunca teria vencido a partida.

Em 2002, Luis Felipe Scolari levou Luizão no lugar de Romário. E o Brasil foi pentacampeão. Porque, independente de Romário estar lá ou não, jogou pelo ítulo, tão bem quanto fosse necessário.

Agora a imprensa fica com essa bobagem de “é preciso renovação” como se isso já não fosse um processo automático a ser seguido após todos os mundiais.

Nunca gostei de Dunga como treinador e a maioria de meus textos sempre foi contra ele, contra Ricardo Teixeira e como sua gestão frente à CBF transformou a Seleção Brasileira num arremedo de time, sem alma e sem identificação com o povo, a que eu chamava de Selecionado Brasileiro de Football. Ao chegar a Copa. isso mudou.

Frente às inúmeras reclamações da imprensa sobre a convocação de Dunga e pela sua coragem – e não teimosia – em focar o grupo apenas no futebol, tomei gosto pelo Brasil, me deu vontade de torcer, como a muito tempo não torcia, pelo êxito daquele time.

Dunga não trouxe o hexa, mas fez com que fosse possível para brasileiros como eu, torcer de verdade pela Seleção Brasileira.

Não é exatamente o fim ideal para a Era Dunga, mas é muito mais que apenas ma derrota. É um novo começo.

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