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Bitan Recomenda: Inception

11/08/2010

“You’re waiting for a train, a train that will take you far away. You know where you hope this train will take you, but you can’t be sure. But it doesn’t matter – because we’ll be together.”

É mais fácil lembrar sobre o que você sonhou noite passada do que a última vez em que foi ao cinema e pagou para ver um bom filme.

Particularmente, trata-se de um fato. Recordo-me com facilidade das histórias sonhadas durante o sono da última noite, um pesadelo longo protagonizado por um Freddy Krueger curiosamente em forma feminina seguido por um adorável romance de temas eróticos; puro entretenimento. Sobre o último bom filme a ser visto numa sala de cinema, no entanto, não possuo nem vaga memória.

Tudo bem que esteja ignorando Shrek Forever After, que realmente fez valer o dinheiro a mais investido num par de óculos 3D devolvidos ao término da sessão. Mas é proposital. Apesar de muito divertido, o longa não passa de um apanhado de sketches de comédia envolvendo personagens que o público conhece bem, até demais. Artisticamente, é um filme previsível, com um enredo construído à base de clichês e com um final à Deus ex machina. Por isso, não classifico como um bom filme.

Dessa forma, Inception – ou A Origem, em brasileiro, como preferir – dispara como a melhor realização cinematográfica sobre a qual minha inapta memória possui total senso de apreciação.

É como se algum produtor subitamente resolvesse criar – ou permitir que fosse criada – uma peça completamente original que, fora o nome de astros estampando os cartazes, não parecia oferecer nenhum tipo de atributo que pudesse atrair o espectador comum, junto com seus bolsos cheios de dinheiro, às salas de cinema.

O enredo deve confundir as mentes mais preguiçosas, acomodadas por anos testemunhando sucessivamente a mesma história, pasteurizada cada vez mais em novos filmes, diferentes atores e sempre o mesmo final, ou melhor, sempre a mesma conclusão, o grande ponto final . Dessa forma, o roteiro encontra seu grande mérito: não pede desculpas por ser complexo nem subestima a inteligência do espectador que sempre espera mais quando permite que lhe contem uma história.

A trama do longa, à modo bem resumido, trata sobre um grupo de pessoas – mais especificamente o personagem de Leonardo DiCaprio, Dom Cobb – especializadas numa categoria bastante única de espionagem industrial: atuam dentro dos sonhos das pessoas. Por conta de  alguns fatores que você conhece assistindo ao filme, são contratados para inserir em um jovem herdeiro de um poderoso homem de negócios a idéia de dividir todo o império deixado por seu pai, a beira da morte.

Daí, predomina a competência de Cristopher Nolan, provavelmente o melhor diretor, tanto dos aspectos cênicos quanto técnicos da produção de um longa metragem, que Hollywood pode oferecer no momento.

Nolan parece infalível dentro de sua arte. Apareceu para o mundo como nome de sucesso após dirigir o excelente Amnésia, filme em qual também realizou um grande trabalho como roteirista e que o levou a ser escalado para uma produção de porte maior, estrelada por Al Pacino e Robin Willians. Insomnia, entretanto, não atingiu grande êxito e Nolan parecia ser apenas mais um caso-comum do iniciante que tropeça na grande chance de dar sequência à excitação causada por seu trabalho de estréia.

A história mudou quando o cineasta apresentou Batman Begins. Não apenas um filme que conseguiu ressuscitar a carreira do super-herói morcego na tela grande, mas um trabalho em que era possível enxergar mais que apenas um bem-sucedido início de franquia para a DC Comics, indícios de um bom filme, acima da segregação do gênero “quadrinhos”.

E se Batman Begins teve seus lampejos de genialidade, The Dark Knight, a sequência do filme do Batman, definitivamente colocou Christopher Nolan no panteão de grandes realizadores da atualidade. Foi o primeiro longa, o primeiro film de super-heróis. Quebrou completamente a barreira entre um gênero dedicado a filmes-pipoca e as grandes obras de uma era. Nolan provou que sempre, sob qualquer circunstância mercadológica, é possível fazer um grande filme. Entre os dois Batmans, ainda lançou The Prestige, outro grande filme, sobre a rivalidade entre dois mágicos(Hugh Jackman e Christian Bale, o próprio Bata).

Após The Dark Knight e com a sequência já em fase de produção, é normal que um cineasta desse calibre encontrasse outro trabalho, mais pessoal, menor, buscando apenas a satisfação pessoal. Foi exatamente o que Nolan fez, em partes.

Inception é sim uma menina dos olhos do diretor, mas nunca deixa de ser um filme ambicioso, recheado de astros. Christopher Nolan faz com que todos os elementos envolvidos trabalhem a seu favor: atores, efeitos especiais, roteiros… o filme flui sem exageros, sem as iscas usuais para o cliente-padrão dos filmes-pipoca.

Quer dizer, é óbvio que ali dentro encontram-se as doses usuais de romance e explosões, afinal de contas ainda estamos falando de uma produção de um grande estúdio de Hollywood, mas nada parece forçado, nada parece fora do lugar. Roteiro e diretor trabalham para que cada personagem e ação funcione como uma peça importante da engrenagem que faz mover a realidade do filme. E conseguem, com amplo sucesso.

Talvez o que mais faça com que a experiêcia de assistir ao filme seja tão recompensadora seja a prosaica sensanção de que estamos assistindo a uma história interessante ser bem contada.

Geralmente os filmes que possuem muitos astros na escalação acabam parecendo um amontoado de nomes que estão ali apenas para deixar o pôster do filme mais apetitoso, ou como quando vamos tirar uma foto com muita gente e alguns chatos que nem nos lembrávamos que estavam presentes se espremem para aparecer. Em Inception temos bons atores em seu devido lugar, com o tempo certo de tela, mesmo que seja pouco.

Michael Caine segue sendo o eterno Alfred de todos os filmes de Christopher Nolan. Embora não faça mais que uma ponta, é sempre enriquecedor para um filme contar com sua voz de velhinho e semblante frágil, porém forte e sábio.

O único aspecto que não agradou completamente foi o teor um tanto quanto “cinematográfico” de alguns diálogos. Sob circunstâncias especiais as pessoas normais se portam como pessoas normais e não como comunicadores empostando a voz para fazer um discurso.

Por vezes, principalmente na interação entre os personagens de Ellen Page e Leonardo DiCaprio, é como se o lado humano, real, das pessoas comuns, fosse tomado por legítimos personages de ficção científica dos anos 1950, com frases meio prontas, meio robóticas, de efeito preciso e estética calculada. Não compromete o resultado final, mas confere uma aura de irrealidade que causa um tanto de afastamento entre público e personagens.

Neste momento, as lembranças sobre os sonhos da noite passada já não são mais fortes como horas atrás. Mas a opinião sobre Inception permanece inalterada: trata-se do último grande filme pelo qual paguei para assistir no cinema e acredito que o será ainda por muito tempo, mesmo após novas visitas às grandes salas – e às pequenas também – do shopping center de Blumenau.

Só por não se tratar de mais uma porcaria embrulhada em 3D com aumento de preço, já vale a sessão.

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